Roteiro




Como um roteiro escrito pelas mesmas mãos e no mesmo lugar, me vejo lendo e relendo as mesmas palavras. Hoje pela manhã recebi aquele mesmo envelope velho (acho que não se dá o trabalho de comprar um melhor), apanhei o mesmo e subi as mesmas escadas. Peguei meu café e sentei na velha poltrona, ao abrir aquele envelope eu já sabia tudo o que ia ler, não sabia o por que do meu interesse, mas esperava recebê-lo todos os dias em diante. Lia todas as palavras com precisão e ao fazer isso, tinha a mesma reação, a garganta apertada, os olhos cheios de lágrimas ao se dirigem ao final e como todas as outras vezes, eu amassava aquele papel sem ler as ultimas linhas. 


O medo tomava conta, era só um roteiro, mas não era só um roteirista. Tomava de uma vez aquele café amargo e quente que rasgava minha garganta, deixando para trás o mesmo papel, me dirigia a janela para observar o que eu não vivia. Enxergava apenas sombras que instigavam a minha imaginação para o meu mundo fechado, respirava fundo, sabia exatamente a minha situação, estava tudo muito claro. Mas era conveniente que eu ficasse no mesmo lugar, eu juntava pilhas de envelopes e sacos com muitos papéis amassados vindos do mesmo lugar e do mesmo escritor, pra que mudar agora se posso ter a certeza do amanhã? Presa aqui, sei que nada de mal me acontecerá, sei que não vou perder o que tenho e posso ter plena convicção de tudo o que vou sentir.


 Foi então que nessa reflexão desvantajosa, percebi que precisava escolher entre deixar toda aquela papelada tomar conta da minha casa ou ler todas novamente até o final, antes que o próximo dia chegasse. Me direcionei até o espelho, eu vestia a mesma cor de vestido todos os dias, meu cabelo era bagunçado e sempre do mesmo jeito, foi quando lembrei-me de uma caixinha que deixava na pentiadeira. Abri a mesma e pude ver algo que brilhava, guardei aquilo por tanto tempo e já não o usava mais, um lindo colar que havia ganhado a muitos anos atrás. Decidi colocá-lo e, ao me olhar novamente para o espelho, percebi que meus olhos brilhavam. Arrumei meu cabelo e coloquei um vestido branco que havia usado numa bela ocasião da qual nem me recordava mais. Fui para a sala, sentei-me de frente para todos aqueles papéis e estava decidida que leria um por um, ao pegar a primeira folha, ouço uma voz desesperada que havia aberto a minha porta grotescamente, era grossa e pedia para que eu não fizesse isso. Dirigi meu olhar para ele e para minha surpresa, o roteirista se aproximava sem pedir licença, pegou minha mão e me levantou dizendo que eu não poderia ler o final e que ele me escrevia sempre as mesmas palavras, sabendo que eu não leria o final, podia sentir o hálito de cigarro e seus olhos molhados e apertando minha mão, sem delicadeza, disse que eu era o seu roteiro e o único motivo pelo qual ele escrevia. Pensei comigo mesma "todo esse tempo ele em previa, sabia todos os meus passos e lia sem a minha permissão todos os meus pensamentos" e abaixei minha cabeça, ele não entendeu e pediu pra que eu dissesse algo. 


Abri um curto sorriso e, sem olhar em seus olhos, com um dos papéis na mão, disse àquele homem que havia me formado por tanto tempo:
-Tudo bem, não lerei esse final, mas também não serei mas personagem de suas histórias.
Ele me olhava sem saber o que fazer, tomei a ultima xicara de café e lhe beijei, segurando-me com sua doce voz pediu para que eu ficasse. Simplesmente não proferi uma palavra se quer, decidir conhecer tudo o que apenas via daquela velha janela. 


Com passos lentos e firmes, comecei a escrever o meu próprio roteiro.


modificado http://moonv.blogspot.com/2009/06/um-roteiro.html

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