A Pintura




Eu possuía um pincel, algumas tintas e uma tela, foi quando comecei.
Não quero ser a pessoa que todos aspiram ser, não quero vestir o que todos procuram ter, não quero participar dos olhos que todos usam para crer, pensar como todos esperam ponderar com o que chamam de “mente”. Porque o que vale mesmo é andar na contra mão quando todos querem o mesmo sentido. Tanta coisa podre, tanta coisa ruim, tanta gente perdida. Onde achas que está seu coração agora? Minha tinta vermelha, para esse caso, acabou.
Engolidos pela fantasia de que tudo vai melhorar, tampamos os próprios olhos para propagar a mentira. Quem são vocês? Eu perguntei-lhes mais uma vez. Eles nem se quer se voltaram para mim, mas sorriram novamente, como se quisessem que eu sugasse a resposta em minha mente. Tantas eram as máscaras, que me perdia nesse carnaval de inverdades. Pude notar o putrefato das carnes daqueles que foram condenados e corrompidos por esse veneno, que, por incrível que pareça, é desejado pelos ignorantes de coração.
Que a minha vontade era gritar, agora é de calar. Não há mais valor algum em dizer o que os influenciados precisam ouvir, eles não dariam a mínima de atenção. Porém, ao mesmo tempo, me grita a pretensão no peito de ir até eles e lhes abrir os olhos, mostrar que o mundo em que eles se prendem não é real como parece. Rabisquei o que era possível para não pintar indevidamente a verdade que precisavam ver.
E quando achei que não precisava mais me importar, pensando que dessa vez havia achado a chave para que eu pudesse sair desse mundo, foi quando eles me mostraram brutamente e sem piedade alguma da minha agonia, disseram: “Quando achar que achou, lembre-se: Eles mentiram para você.”.
Então, caí. Do céu azul que eu pintei, me surpreendi, ao pegar o mesmo pincel e sem o meu consentimento, sem minha vontade, comecei a pintar a minha queda. Pude sentir meu coração acelerado, tentei me ludibriar, mas as mentiras escaparam. Quando menos esperei, já tinha concluído a obra, a um passo do inferno, me dei conta que pintei e borrei os meus pecados, minhas discrepâncias, meus desacertos. Eles gritavam. Desnorteada, não pude encontrar as minhas cores, o preto e branco dominara aquela tela.
Olhei ao meu redor, não estava sozinha. Ali ocorria o maior carnaval global, todos estavam usando suas respectivas e caracterizadas máscaras, que eles moldavam para se embelezar da mentira. Tudo revolvia, eu estava completamente sozinha. Foi quando eles me encontraram, me disseram que eu poderia trafegar entre minhas obras, ou seja, tanto o meu céu fantasioso quanto aquele inferno autêntico, mas que aquele seria meu lar por um bom tempo. Mesmo não sendo uma alternativa tão afável, pude respirar.
Fiquei ali, sentada, assistindo o que eles haviam introduzido em meu quadro, esperando uma lacuna para que eu pudesse trocar de lado. Minha agonia era clara, me esforcei tanto para pintar essa tela, quando vi, já não entendi mais nada, não havia mais nada. Foi quando percebi a chegada de alguém numa situação parecida com a minha, pude ver meu reflexo nos olhos desse ser, me indagou “Quem são eles? Eu achei a saída?”, tristemente, respondi “Eles não se voltarão a você, mas sorrirão novamente, querem que você sugue a resposta no que você chama de ‘mente’. Quando achar que achou, lembre-se: Eles mentiram para você”.

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