Música

E a velha mania de querer viver todas as músicas que me encantam. Eu estou muito além de apenas ouvir as canções que me agradam, o que faz com que eu me apaixone por elas é o ato de trazê-las até mim, fazer com que elas sejam parte de mim e criar uma utopia de momentos que talvez nunca existiram. Talvez. Faço isso para poder amar mais aquilo que ouço e não sei fazer de outra forma. 

Próximo parágrafo.

Entenda que eu estou fazendo um grande favor não só pra mim, mas pra você também. Pra você ir embora de vez e viver. Viver sem a esperança que eu volte. Mesmo que eu não saiba o que fazer com o amor que eu guardei pra você, nós dois sabemos que é melhor assim. 
Porque já não há mais lógica nisso que andamos vivendo, se não vamos ficar juntos não há porque ficarmos aqui. Estou fazendo isso por amor ao que tivemos antes que tudo vire cinzas e péssimas lembranças. E eu que pensei que estaria interminávelmente triste, mergulhada em soluços e lágrimas, hoje eu vi que permaneci com um sorriso tímido que não teve a ousadia de me abandonar. 
Talvez eu tenha encontrado meu ponto final. Talvez eu já esteja em outro parágrafo.

Quando eu ficar parada olhando para a janela sem motivo algum, eu estou amando você. Quando eu acordar cedo pra trabalhar e te acordar com dó, eu estou amando você. Quando alguma lágrima cair do meu olho e secar com o seu tocar de dedos, eu estarei amando você. Eu não te amo por motivos que a maioria possa supor, eu te amo por nós. Te amo por nossos silêncios, onde nos entendemos e ninguém sabe de nada. Eu te amo por pedir desculpa, por te deixar bravo, por te fazer feliz e por compartilhar tanta coisa contigo. Não há bem que signifique, não há palavra que expresse e não há gesto que mostre o quão intenso é o meu amor. Eu te amo quando só você sente. E quando não estivermos bem e não houver nada que me faça te amar, o meu amor fará.

Malu Macêdo, adaptado.
Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

Caio Fernando Abreu
"Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair"


Chico Buarque
Por mais que eu me afaste, queime suas coisas, mude tudo de lugar, conheça outras pessoas… A questão é que você não está nisso tudo, você está em mim e por isso não consigo te esquecer.

Palavras em êxtase

São 4:30 e eu ainda me sinto em êxtase. Sinto como se pudesse escrever mil coisas ao mesmo tempo e quando penso nisso meus olhos se enchem d’água. Meus dedos estão formigando, tudo está tão escuro lá fora e aqui há uma luz que eu não poderia explicar. Acho que fico assim toda vez que assisto um filme ou ouço uma música que fala mais de mim mesma do que eu poderia esperar. Então é quando as palavras se tornam parasitas que se instalam em minha mente aos montes, me sinto bêbada sem ter ao menos colocado uma gota de álcool na boca e confesso que isso seria um tanto interessante agora. Mas meu pudor não me permite fugir da sanidade. Não agora. Me pergunto se tem restado o que eu sou de verdade dentro de mim mesma, me pergunto se não tenho sido os outros demais. Palavras, eu as sinto sair de todo o meu corpo como suor. Transpirando palavras, epifanias, nostalgias. Confusa. E decidida por um momento que eu sei que vai passar. A vontade de chorar presa na garganta. Ninguém está me assistindo e ainda sim tento ser orgulhosa comigo mesmo, como se quisesse provar para mim mesma que chorar me tornaria fraca e só eu sei porque estaria chorando. Eu não vou escrever sobre você desta vez, porque é só isso que eu tenho feito. E eu? E eu? Pra onde é que eu vou? Onde é que eu fico no meio das minhas próprias palavras? Então isso é sobre mim. Percebo que não consigo sair dessa fantasia de que a vida vai se resolver por si só, sem que eu precise crescer e me mexer. Eu deveria tomar uma atitude, mudar. Mas quando isso me acontece eu só consigo não dormir e escrever. Porque eu sou feita é disso, de palavras. 

A beleza em tudo o que ela é



É a maneira como ela me faz sentir viva. É isso que me encanta. Ela me faz ser eu mesma, sem medo de dizer alguma coisa, de fazer algo que qualquer outra pessoa me julgaria de forma errada. Ela sabe não dizer nada e dizer tudo ao mesmo tempo. Eu me pergunto por que dependo tanto dela? As vezes é porque eu sei que ela pode me salvar, de alguma maneira, é isso que eu sinto. Todo mundo sabe que não se pode depender das pessoas, mas depender dela parece tão seguro. O modo como chora comigo, como ri comigo, ela nunca se isenta dos meus sentimentos, dos meus problemas, porque ela se envolve, ela está em tudo o que é bom e não se retira do que é ruim em mim. Deve ser por isso que me apóio nela e acredito que todas as amizades deveriam ser assim. Ela não só me ouve, ela não só me consola, ela vive, ela sabe viver tudo o que eu sinto e isso faz dela um anjo. Ela erra tanto, tanto, que qualquer pessoa veria maldade no que ela faz. Mas eu não. Eu não vejo nada além de beleza em tudo o que ela é. 

Namorix

Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração “tribalista” se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.
A maioria não quer ser de ninguém, mas que quer que alguém seja seu. Beijar na boca é bom? Claro que é! Se manter sem compromisso, viver rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas por que reclamam depois? Será que os grupos tribalistas se esqueceram da velha lição ensinada no colégio, onde “toda ação
tem uma reação”. Agir como tribalista tem conseqüências, boas e ruins, como tudo na
vida. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.
Embora já saibam namorar, “os tribalistas” não namoram. Ficar,também é coisa do passado. A palavra de ordem hoje é “namorix”. A pessoa pode ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo.Dificilmente está apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de manter a ilusão de que não está sozinho.
Nessa nova modalidade de relacionamento, ninguém pode se queixar de nada. Caso uma das partes se ausente durante uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu, afinal, não estão namorando.
Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo de cobrança? A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais. Assim como só deseja “a cereja do bolo tribal”, enxerga somente o lado negativo das relações mais sólidas.
Desconhece a delícia de assistir um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças.
É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer boa noite, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar. Já dizia o poeta que “amar se aprende amando” e se seguirmos seu raciocínio, esbarraremos na lição que nos foi passada nas décadas passadas: relação é sinônimo de desilusão.O número avassalador de divórcios nos últimos tempos, só veio a
confirmar essa tese e aqueles que se divorciaram (pais e mães dos adeptos do tribalismo), vendem na maioria das vezes a idéia de que casar é um péssimo negócio e que uma relação sólida é sinônimo de frustrações futuras. Talvez seja por isso que pronunciar a palavra “namoro” traga tanto medo e rejeição. No entanto, vivemos
em uma época muito diferente daquela em que nossos pais viveram. Hoje podemos optar com maior liberdade e não somos mais obrigados a “comer sal junto até morrer”. Não se trata de responsabilizar pais e mães, ou atribuir um significado latente aos acontecimentos vividos e assimilados na infância, pois somos responsáveis por nossas escolhas, assim como o que fazemos com as lições que nos chegam. A questão não é causal, mas quem sabe correlacional. Podemos aprender amar se relacionando. Trocando experiências, afetos, conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os
conceitos que nos foram passados. Somos livres para optarmos.E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento… É arriscar, pagar para ver e correr atrás da felicidade. É doar e receber, é estar disponível de alma, para que as surpresas da vida possam aparecer.
É compartilhar momentos de alegria e buscar tirar proveito até mesmo das coisas ruins.
Ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém também… É não ser livre para trocar e crescer… É estar fadado ao fracasso emocional e à tão temida solidão.



Arnaldo Jabor