Perdida. Mas sabia muito bem que precisava daquilo mais do que nunca. Tão simples e tão complexo ao mesmo tempo. Decidiu. Abriu a carteira e viu que tinha o suficiente. Preparou a pequena mala, leve apenas o básico, o necessário. Chamou um táxi. E antes de sair pela porta, olhou-se no espelho do corredor. Estava linda. Parou por um momento e falou consigo mesma "você sabe que precisa disso", levantando a mão direita, tocou no espelho, sorriu, seus olhos se encheram d'àgua. Respirou. Inspirou. Pegou suas coisas e saiu. Entrando no táxi, disse ao senhor motorista:
- Para o aeroporto, por favor.
Seguiu o trajeto olhando pela janela tudo o que estava deixando, pensou em tudo mais uma vez, mais uma vez ouvindo seu coração, que não sabe de nada, que a colocou em apuros. O céu fechou, nuvens escuras se aproximavam, estava óbvio que uma chuva forte chegaria. "É um sinal", pensou, "um sinal para que eu desista. Mas não vou ouvir, não vou desistir. Só eu sei o quanto eu preciso disso". O táxi parou, o senhor se virou para trás e disse:
- Senhora, chegamos.
Mas ela pareceu não ouvir, ficou olhando pela janela as primeira gotas caírem do céu. E quase gritando, repetiu o motorista:
- Senhora?
- Sim?
- Chegamos.
- Ah... Claro, é mesmo. - Pagou o moço e saiu rapidamente, como se fosse morrer se não chegasse logo ao local de desembarque. Mas não estava atrasada, não desta vez. Ela nunca foi o tipo de pessoa que chegava pontualmente nos locais, nunca gostou de ser pontual, mas desta vez era diferente. Chegara com duas horas adiantadas. Talvez fosse pra provar que não se atrasaria desta vez, que não ia desistir.
Correu para fazer o Check-in e todos os procedimentos. Se sentou, sabia que iria esperar um bom tempo. Não conseguia se distrair, não conseguia pensar em outra coisa se não naquilo tudo que estava fazendo. Sua cabeça parecia uma explosão de ideias, enxurradas de indecisões e pensamentos, não sabia o que sentir sobre isso tudo. Não mais. Foi quando olhou para a esquerda e viu uma pequena cafeteria, sim, era isso, precisava de um café! Se levantou e foi andando, em passos rápidos, para o local. Uma moça muito simpática a atendeu:
- O que vai querer pra hoje, senhora?
Sentiu tudo desmoronar, "o que vou querer pra hoje?", se perguntou, "vou querer que tudo dê certo, que eu tenha coragem, que ele diga toda a verdade e que seja tudo perfeito. Mas, mas não sei o que quero no final, não sei como quero que termine. Só quero que o amor hoje".
- Um café, por favor, bem forte e sem açúcar -- Respondeu, quase roca, desanimada porque estava pedindo um café e não o homem da sua vida. "Quem dera se fosse tão fácil pedir o que eu quisesse pra hoje" pensou.
Sentou nos banquinhos que haviam ali, esperou. Olhava pro relógio de pulso, que tanto odiava usar, quase que o tempo todo. Ela achava que estava com medo de perder a hora, mas não, não era disso que ela tinha medo, ela tinha medo era de tentar imaginar como que tudo aquilo ia acontecer.
O café chegou, finalmente, estava tão ausente do mundo real e perdida em seus pensamentos que nem percebeu que a bebida estava quente e foi logo aproximando a boca da xícara.
- Ah! Droga! -- Queimou-se. Se tinha algo que realmente a tirava do sério era queimar a língua. Acabou pedindo alguns cookies pra ver se conseguia tirar o gosto de "língua queimada" da boca. Foi quando um casal se aproximou da cafeteria, sorrindo e fazendo brincadeirinhas entre si, pediram capuccinos e alguns petiscos. "Que casal lindo" pensou e logo mil lembranças lhe vieram, mas sorriu, sorriu pra si, sorriu pro nada, porque sabia que já fora feliz assim, sabia o quanto aquilo era bom e, principalmente, sabia que odiava comer sozinha em qualquer lugar. A hora passou rápido e viu que precisava ir pro local de desembarque, pegou suas coisas e olhou pela última vez para aquele casal, sorrindo, mas com pensamentos desanimadores em relação à eles, como se indiretamente, sem que percebesse, quisesse prever que o futuro deles seria infeliz.
Correu, de novo, para uma fila enorme de pessoas que pegariam o mesmo avião que ela. Apresentou os papéis e documento para os senhores uniformizados, passou sua mala pela esteira, nada apitou, tudo bem, tudo certo. Seguiu a fila e logo estava dentro do avião. Pegou seu chiclete -- ela sempre masca chicletes quando viaja de avião porque aos fazê-los seus ouvidos não doem -- abriu, quase que desesperada e o colocou na boca. Escolhera uma poltrona na janela, fez questão, adora vez a cidade lá de cima, as luzes piscando, tudo pequeno, principalmente numa sexta-feira a noite onde tudo está movimentado em qualquer lugar. Ama viajar de noite. Ama a noite. Porque é nela que ela se encontra, é como se fosse composta de lua, estrela e escuridão. Vai entender. Adormece. Com a impressão de que tinha dormido apenas 5 minutos, olha no odioso relógio de pulso novamente e vê que já se passaram uma hora e que estão prestes a pousar. Esfrega os olhos e tenta arrumar o cabelo, desamassar a roupa com apenas o passar da mão sobre ela. Vozes. Parece que todos do avião "acordaram" com ela e que todos decidiram tagarelar. Mas ela não, ela está sozinha e só "tagarela" com sua mente, consigo mesma. Olha em sua volta e vê que não há tantas pessoas conversando como ela imagina e percebe que deve ser só a dor de cabeça que deve ter aumentado o som das vozes destes desconhecidos. O avião pousa, mais meia hora pra que ela possa sair dali. Todo o processo de saída. O esbarra-esbarra de pessoas, alguns pedidos de desculpas, alguns olhares tortos, outros mais simpáticos, mais silêncio e sua mente não se distrai do foco. Chama um táxi, está tarde, sabe que pagará mais caro e isso a enfurece, mas tudo bem, ela já esperava. Precisa ir pra algum hotel perto da rodoviária, não pode ir à casa de suas amigas mesmo que queira tanto contar a elas tudo o que está acontecendo. Mas sabe que se parar, por mais que sejam algumas horas, para ouvir a opinião de alguém sobre a decisão que está tomando, vai desistir. E desistir está fora da sua realidade naquele momento.
Waiting in the dark for miracles...
Há 14 anos
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